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Os sentidos da Poli (uma reflexão necessária)

Meu irmão, com alguns anos de vida, derrubou uma caixa de ovos no chão da cozinha de nossa casa, após ter aberto a geladeira numa expedição proibida à cozinha. Os ovos se espalharam no chão e o barulho trouxe minha mãe até o local. Indagado sobre porque tinha quebrado os ovos, ele respondeu prontamente:

– Mas não fui eu que quebrei, foi o chão.

Os ovos e a metalurgia, aparentemente, são assuntos bem distantes. O que eles fazem juntos, então, nessa monografia? Evidentemente, não vamos fazer considerações sobre a lei da gravidade agindo nos ovos, ou ainda a percepção física precoce de meu irmão. O que se quer ressaltar com esse exemplo é que a percepção dos fatos não é um fenômeno tão óbvio e simples como se imagina. Com a sua inocência infantil, meu irmão percebeu que, na verdade, o chão é "quem" havia quebrado os ovos. Sua "culpa" no ocorrido é mera convenção social. A realidade nua e crua é que o fato mais elementar ocorrido naquela cozinha, há vinte anos, foi que uma dúzia de ovos chocou-se com o chão.

Isso nos conduz a uma reflexão necessária sobre o aprendizado das ciências no nosso sistema de ensino, especialmente na Escola Politécnica. Na metalurgia tomamos contato com uma série de fenômenos elementares da natureza: átomos se movimentando e se chocando, moléculas se formando e substâncias se transformando. Até que ponto o nosso sistema de ensino propicia uma percepção "suficientemente simples" desses fenômenos? Não estaríamos todos condicionados e – porque não dizer, "viciados" – a perceber os fatos por meios de explicações algébricas e numéricas? O mito da ciência como algo terrivelmente complicado, cujos segredos só estariam disponíveis para uns poucos "gênios", não faz com que desistamos – antes mesmo de tentar – de descobrir as explicações mais fundamentais dos fenômenos naturais?

Estes, aliás, quando profundamente estudados, se mostram que não são mais do que uma combinação de alguns processos extremamente simples e elementares. Evidentemente, isso não quer dizer que sejam de fácil entendimento. Pelo contrário, a percepção da simplicidade e beleza só é possível num nível de abstração elevado. Entretanto, nossa percepção é educada para desconfiar de toda explicação simples. Aprendemos desde a infância que a ciência, por definição, deve ser complicada e inacessível.

Essa questão nos leva à outra: a dissociação entre conhecimento e percepção cotidiana. Não teria sido a curiosidade humana o principal fator do aparecimento e do enorme desenvolvimento das ciências? E não seria natural esperar que os alunos de Engenharia fossem "curiosos" por excelência? Infelizmente, o que se verifica é que os alunos entram na faculdade extremamente motivados, mas perdem qualquer estímulo depois de um ou dois anos. Segundo Idone Bringhetti [IDONE], em "O Ensino na Escola Politécnica", 82,9% dos estudantes consideram que a organização do curso favorece pouco ou muito pouco a integração entre os alunos. Além disso, 70,4% dos alunos leram de 0 a 5 livros (exceto os de estudo) desde o início do curso superior. Como se não bastasse, 68,5% dos politécnicos responderam que sempre ou muitas vezes tiveram professores que se limitaram a repetir o livro-texto durante as aulas.

Uma das causas dessa falta de motivação é sem dúvida o fato de que o ensino de graduação se transformou num "fenômeno de massas", principalmente na sua parte crucial: o biênio. Planejado para desenvolver o raciocínio do ingressante, os dois anos iniciais do curso da Escola Politécnica notabilizam-se por serem uma extensiva fonte de vícios.

Confunde-se o saber com treinamento matemático, e consegue-se a façanha de transformar uma das mais fascinantes conquistas da humanidade – o conhecimento científico – numa sucessão aborrecida e enfadonha de aulas sem criatividade e provas automáticas. Não estranhemos, portanto, que depois de dois anos desse anti-aprendizado, os alunos tenham perdido qualquer interesse maior pela Ciência.

Como se não bastasse, o sistema de avaliação não evoluiu muito desde a Idade Média: valoriza o sofrimento, e não a conquista. A cultura do sofrimento está corroendo as bases que mantiveram nossa escola de pé durante esses cem anos: o companheirismo, o respeito pelo aluno, o respeito pelo conhecimento, a valorização do ser humano, o trabalho em equipe.

A crítica pura – de ambos os lados – não é a forma mais efetiva de contribuir para a Escola. Mais importante que a crítica seria pensar novas formas de ensino e abandonar métodos que, em pleno século XXI, não fazem mais sentido. A cultura numérica, da nota acima de tudo, destrói o que nossos alunos tem de melhor: a noção de excelência, a iniciativa, a atitude crítica. O aluno é levado a buscar a média, o menor caminho que o livre dessa ou daquela disciplina, e não a nota máxima. Se o faz, muitas vezes é pelo status que ela proporciona ou por simples vaidade. Raramente se trata de uma satisfação intelectual.

Soma-se a isso a ausência de qualquer disciplina de ciências não-exatas, como psicologia, comunicação, redação, sociologia, história ou biologia. A Escola Politécnica é uma escola de engenharia, e não de ciência pura ou de cultura geral, dirão alguns. Segundo eles, não faria sentido estimular essa "satisfação intelectual" do futuro profissional, afinal "o engenheiro é um ser prático". Deveríamos deixar esse tipo de sensação para os filósofos, matemáticos, poetas e monges tibetanos.

Mas o que esquecem esses aduladores do pragmatismo é que os descobrimentos mais brilhantes da ciência e da tecnologia surgiram de homens multidisciplinares e – importantíssimo – que dominavam os princípios básicos dos fenômenos naturais.

Mais do que isso, eles souberam enxergar os fatos de uma outra forma, nunca antes pensada, assim como meu irmão inesperadamente imaginou que o chão houvesse quebrado os ovos, e não ele próprio, como seria óbvio para qualquer adulto. Einstein relata que o insight que o levou à Teoria da Relatividade foi um exercício de imaginação: ele pensou em como veríamos o mundo viajando num raio de luz.

O que preocupa é que centenas de alunos estão concluindo seus cursos de engenharia em nossa escola, ano após ano, sem que tenham sido "treinados" a olhar os fatos de uma forma mais atenta e questionadora. Somos condicionados a aceitar demais, acreditar demais.

Nossa rebeldia sem causa, nosso espírito desbravador, nossa vontade de transformar as coisas são sistematicamente sufocados, massacrados, silenciados. Não queremos que a escola se transforme num celeiro de guerrilheiros, mas que toda essa força criadora seja aproveitada para produzir conhecimento novo, soluções criativas, outras abordagens, teorias ousadas.

Pois a principal fonte da criatividade não é a associação e combinação de idéias? E nossos alunos estão, cada vez mais, aprendendo não só a ter só uma idéia, mas a pensar sempre da mesma forma. O raciocínio lógico-dedutivo parece ser o único a imperar na Escola Politécnica, em detrimento do raciocínio indutivo, tão importante quanto o primeiro.

O curso de Metalurgia teve o mérito de sanar alguns dos vícios do Biênio. Em várias disciplinas nota-se que os professores efetivamente se interessam em fazer o aluno aprender, e não se limitam a repetir automaticamente o conteúdo dos livros-texto. Nessas disciplinas somos levados a perceber a extrema simplicidade – e por que não dizer, beleza – de vários fenômenos em Metalurgia. Além disso, a problematização de vários desses fenômenos, durante o curso, promoveu uma verdadeira revolução na cabeça de cada um dos alunos.

Percebemos ser possível compreender a Ciência de forma tranqüila, sem traumas, mas não sem estudo. Resta fazer com que disciplinas assim passem a ser maioria, o que está longe de ser verdade.

Sem dúvida, a razão pela qual alguns países conseguiram transformar-se em potências tecnológicas e científicas em pouco tempo foi o bom aproveitamento do patrimônio cerebral nacional. Há dúvida se o material humano que ingressa em nossa Escola é de fato bem aproveitado.

Reunimos todas as condições para formar profissionais de vanguarda: um ótimo material humano, instalações físicas acima da média, tradição e amplas possibilidades de recursos externos. Só nos falta um componente fundamental: a coragem de assumir que o nosso modelo de ensino precisa mudar.

Vale lembrar que não estamos falando aqui de medidas burocráticas, como mudanças de horários, alterações nos critérios de aprovação ou na duração do curso. Precisamos de uma real mudança na filosofia e na forma do curso e na maneira de ministrar as disciplinas de conteúdo científico. Precisamos de um novo pacto ético entre professores e alunos. Numa época de mudanças curriculares, a contribuição do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais será fundamental.

Nós todos precisamos desconfiar mais da obviedade cômoda das coisas. E talvez percebamos que, como escreveu Jacques Brel, famoso compositor belga, às vezes não se sabe se é a neve que cai sobre Liège ou se é Liège que se desmancha em direção ao céu.